segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Aflição no Brasil

Aflição no Brasil

Rio de sangue
Golaço na rodada
Criança some
Padrasto foge
Comida estragada

Leite fora do pote
Água na calçada
Garoto cheira cola
E pede moedinhas
Na tarde de calor forte

Pés de botina cavam o milhão
Bolso cheio é de terno
Bituca de cigarro se estrebucha
No piche preto
Que ferve no verão

Lá pelas tantas
Um baita barrigão
De tanto champagne e caviar
Regurgita e põe pra fora
O vômito que logo se resseca

No cimento
Quem vai limpar é o que chora
E ri com facilidade pra viver
Ganhando trocados
Do engravatado

Mendigo

Mendigo

Me perco no meio do povo
É uma multidão que não acaba mais
Uns cospem no chão para outros limparem
(há quem possa!)
Outros caminham com cachorros e vão a cabeleireiros
Numa disputa infernal
Viver
Muitos conseguem
Sobreviver
É para poucos
Apesar que
Existem mais sobreviventes
Do que ‘viventes’
(é verdade)
Uma nuvem de pessoas
Cólera de humanóides
Invadindo, lutando, desequilibrando
Quem tem o mínimo pode amar e guiar um carro
Que não tem nada
De pinga ou de cansaço
Se deita e dorme na calçada

O motivo de ser

O motivo de ser

Temos que ser
Advogados, atletas, putas
Magos, divindades, políticos
Gurus, ante-cristos, médicos e alfaiates
Mas não ser...
Ah, isso é impossível
Vai ser chamado de vagabundo
De osso duro,
Menino sacrifício
Mas também
Deitar-se para sempre
Apesar da dor da renúncia
Do próprio suicida
É considerado covardia
Um atentado violento ao ofício
De viver

Ciclo da ressaca geométrica

Ciclo da ressaca geométrica

Se um quadrado sou de dia
Á tarde viro triângulo
Lá pela meia-noite
Me transformo em bola
E já de madrugada
Me deito achatado
E na forma de ameba descanso

Dona Morte no retrovisor

Dona Morte no retrovisor

Não importa com quem estejamos
O ambiente não faz a diferença
O dinheiro é insignificante
A beleza e a feiúra estão no mesmo nível
Tanto faz
(a validade tem prazo)

Somos alimentos amontoados na geladeira
Que um dia acabam por apodrecer
Alguns na gaveta de frutas
Outros no congelador
Não há tempo que não passe
Ou que retroceda
(a validade tem prazo)

O trabalho não tem significado
Tampouco o ócio do vagabundo
Que não trabalha nunca
Não tem importância nenhuma
(a validade tem prazo)

Somos bananas
Maçãs, carnes e ovos
E pizzas amanhecidas
Mas não tem jeito
Viver é morrer
Um pouco a cada dia
(a validade tem prazo)

O refrigeramento do nosso cotidiano
Uma hora vai pros quiabo
E todos
Juntos
Debaixo da terra estaremos
(a validade tem prazo)

E deixaremos nosso legado
Para o adubo
Para o fungo e para as plantas
Urubus e hienas
(a validade tem prazo)

Pássaro ferido

Pássaro ferido

Se pudesse voar
Ah sim, ah seu eu pudesse voar
Iria lá pro alto
Depois daria rasantes
Aí sim
Quem sabe eu conseguisse
Encontrar o ápice
A fina parte
Do sucesso
Não precisaria de muito
Só de um par de asas
Um ninho, nem que esse
Fosse uma casa
Traria alimento para os filhinhos
(minhoquinhas desengonçadas)
E em dias de Sol
Seguiria ruma a ele
Mas talvez
Como fez o pássaro ferido
Voaria como Ícaro
Ignorando o perigo
E ousado
Buscaria o tudo, o meu martírio
O universo

Não ponha no prato o que não for comer

Não ponha no prato o que não for comer

Manhã fria de chuva
Muita água desperdiçada
Como se desperdiçam as pessoas
Presas ou soltas
Nas ruas lotadas
Lá fora